Cresci em Portugal, entre a floresta, os campos e o oceano. Essa paisagem moldou-me antes de ter palavras para o descrever. As texturas, o tempo das coisas e todos os ciclos de transformação. Esse lugar ainda está dentro de tudo o que faço.
Sou autodidata, sempre em constante experimentação. Apesar de ao longo do meu percurso o conhecimento aparecer em forma de livros e outros meios de informação mas também através de professores que se foram cruzando comigo.
Quando encontrei a cozedura a lenha, não pareceu uma escolha. Pareceu-me reconhecer algo que já conhecia. O fogo, a cinza e madeira são a conversa mais direta entre o artista e o mundo natural que conheço. Construi o meu próprio forno a lenha aqui em Portugal, e preparo o meu barro com materiais recolhidos localmente. Cuido da cozedura entre 30 e 36 horas — em vez de controlar o processo, colaboro com o forno, deixando que as superficies registem o movimentos da chama e da cinza. O eucalipto e o pinheiro desta paisagem atravessam o meu trabalho. A cinza pouca onde quer.
Sinto-me atraído pela cerâmica tradicional japonesa e coreana cozida a lenha, mas não pertenço a ela. Movo-me entre mundos sem precisar de escolher. Essa liberdade é onde o meu trabalho começa.
Foco-me mais na cerâmica utilitária — peças feitas para serem seguradas e contempladas. Quando abro o forno e encontro uma peça que resultou, dá-me a mesma sensação que encontro na natureza- algo que faz parar o tempo, que nos liga a tudo, que não se consegue explicar com palavras. Procuro que cada peça tenha uma presença própria, algo que permaneça para além da sua função e da minha intenção. É isso que tento conseguir e que espero que chegue às mãos de quem segura a peça.
